22/10/2013

agulheiros

Já reparou que a maior parte das pessoas tem as agulhas mal paradas? ora desarrumadas na caixa da costura, ora espetadas num trapo feio... mas não há razão para isso! Veja o que  pode fazer com restinhos de tecidos e pequenos rectângulos de cartão.  
Uns agulheiros bonitos e práticos, que ainda por cima podem ser um presente muito simpático. E agora que o Natal se aproxima e todos queremos gastar o menos possível, vamos meter mãos à obra com mais uma peça fácil, gira e grátis, feita com aproveitamentos de trapos que já não têm tamanho para mais nada.



  1. Comece por cortar 2 cartões com ± 8cm x 7cm, aproveitando caixas de sapatos, ou outras. Corte também 2 rectângulos de tecidos que fiquem esteticamente bem um com o outro, para fazer o exterior e o interior do agulheiro. Os rectângulos dos 2 tecidos  terão que ser um pouco maiores do que os 2 cartões juntos, para os forrar por fora e por dentro.
  2. Ponha o tecido que escolheu para o exterior do agulheiro na tábua de engomar, com o avesso virado para cima (no caso da foto acima, o tecido dos quadrados).
  3. Sobre o tecido, alinhe os 2 cartões, mas não os encoste um ao outro. Deixe entre eles um espaço de ± 1,5cm, que virá a ser a lombada da carteira de agulhas, ou agulheiro como lhe quiser chamar.
  4. Ligue o ferro de engomar. Dobre para o lado de dentro as bordas do tecido, bem justas aos cartões, colocando entre os cartões e o tecido  fita térmica de colar bainhas. Passe a ferro, com o ferro bem quente, para colar o tecido aos cartões. Faça isso primeiro no sentido do comprimento e depois no sentido da largura.  Tenha o cuidado de deixar os cantos perfeitos e o tecido tem que ficar bem esticado. A parte de fora, já está feita.
  5. Agora, com o tecido reservado para a parte de dentro, repita a operação, mas dobrando os bordos para o interior do trabalho, bem rentes à linha dos cartões,  para formar uma peça única. O modo de colar é o mesmo, usando a fita térmica de colar bainhas. Mais uma vez, cuide dos 4 cantos. Com a fita térmica e o ferro de engomar, consegue-se fazer um trabalho muito perfeito.
  6. Neste momento já tem o agulheiro montado, com o exterior e o interior com tecidos bonitos e compatíveis.
  7. Para terminar, há que fazer a parte onde se vão espetar as agulhas: um rectângulo pequeno de flanela, também de cor condizente com o resto do trabalho, e cujos bordos são recortados com uma tesoura de bicos, como se usa nas amostras de tecidos para não se desfiarem.
  8. Cosa esse rectângulo de flanela na parte central, à mão ou à máquina, como mostra a imagem acima.



E aqui tem um presente útil, bonito, original e muito barato, para o qual provavelmente só irá precisar de  comprar um pouco de fita térmica de colar bainhas.



As dicas finais: 
  1. Prefira tecidos de algodão, ou linho, para poder passar sobre eles o ferro quente, sem perigo de queimar. Tecidos com fibras devem ser protegidos com papel vegetal, ou um pano fino, antes de os passar a ferro para colar.
  2. Se tiver um ferro de viagem, daqueles pequeninos, tem toda a vatagem em utilizá-lo neste trabalho: primeiro, porque consome menos electricidade do que o grande; segundo, porque tratando-se de uma peça pequena, um ferro de engomar também pequeno facilita-lhe a vida.
  3. Em vez de tecidos estampados, também pode bordar um desenho simples, ou um monograma, num pedacinho de linho e fazer com ele a parte exterior do agulheiro. A sua criatividade vai com certeza levá-la pelo melhor caminho!
Por fim, mas não menos importante: divirta-se sempre muito a fazer trabalhos manuais. Sinta-se orgulhosa das suas competências, presenteie aqueles de quem mais gosta com as suas obras, a sua criatividade e o seu amor! e se puder evitar... não gaste dinheiro!

Fotos de João Garcia



21/10/2013

casaco fácil







É com imensa alegria que vejo renascer o interesse pelas artes antigas, aquela sabedoria das nossas avós que correu – e ainda corre – o risco de se perder! Mais uma vez, falo de amor à pele e de auto-suficiência!  A correria, a urgência em que hoje se vive, trabalhar, tratar das crianças,  levá-las à escola, ir buscá-las, quantas vezes literalmente arrastadas por um braço para andarem mais depressa, o frenesim do trânsito, em suma, tudo o que nos tira do eixo, não pode roubar-nos o prazer incomparável de nos sentarmos a ler um bom livro, uma conversa tranquila com a família e os amigos, um trabalho de mãos, autênticas terapias para o corpo e para a alma. Entre estes, os trabalhos com lãs, a costura e tudo o que a nossa criatividade nos ditar.

 
Perpetuar esta sabedoria é prestar um grande serviço à  humanidade!


 










Hoje mostro aqui um casaco que, em esquema, não é mais do que uma "camisola sem buraco para a cabeça". Exactamente assim!  A imaginação é o limite: do tipo de lã ao ponto utilizado, em crochet ou em tricot e até misturando tecido e lã trabalhada, as possibilidades são infinitas! 








Como se faz? 
Como já disse, é uma "camisola sem buraco para a cabeça":
 1º um rectângulo, que se cose dum lado e do outro, para formar os braços e costas. Normalmente esse rectângulo tem entre 50cm e 60cm de largura, conforme o tamanho do casaco. 
O comprimento deste rectângulo que forma os braços e costas, determina o comprimento da manga.
2º no espaço que fica aberto ao centro, que corresponderá ao "corpo da camisola"  tece-se em redondo, a toda a volta, tendo o cuidado de ir alargando o número de pontos, para que o casaco assente bem. Remata-se e já está! 

Na mão, o aspecto do casaco é este



 



Variações do mesmo modelo

















  

Para terminar, uma dica:  utilize sempre materiais de boa qualidade. Se não o fizer, o resultado final dificilmente a fará sentir-se recompensada pelo esforço dispendido.


18/10/2013

O silêncio das palavras









O Silêncio é um tema que me ocupa.  As palavras são elas mesmas e o seu silêncio.

No mundo ocidental vivemos num tempo em que as pessoas muito faladoras parecem as mais inteligentes... são as mesmas que ligam a tv para não se sentirem sozinhas,  que ligam o rádio mal entram no carro,  que falam alto para se fazerem ouvir,  que reproduzem estrondosamente o seu ruído interior... e também são as que não medem as palavras, as que se sentem dispensadas de cortesia em casa.... e tudo isso é ruído, é muito ruído.

Pablo Neruda disse um dia:
"PEÇO SILÊNCIO. Agora me deixem tranquilo. Agora se acostumem sem mim. Eu vou cerrar meus olhos. Somente quero cinco coisas, cinco raízes preferidas. Uma é o amor sem fim. A segunda é ver o outono. Não posso ser sem que as folhas voem e voltem à terra. A terceira é o grave inverno, a chuva que amei, a carícia do fogo no frio silvestre. Em quarto lugar o verão redondo como uma melância. A quinta coisa são teus olhos, Matilde minha, bem amada, não quero dormir sem teus olhos, não quero ser sem que me olhes: eu mudo a primavera para que me sigas olhando. Amigos, isso é quanto quero. É quase nada e quase tudo. Agora se querem, podem ir. Vivi tanto que um dia terão de por força me esquecer, apagando-me do quadro-negro: meu coração foi interminável. Porém porque peço silêncio não creiam que vou morrer: passa comigo o contrário: sucede que vou viver. Sucede que sou e que sigo. Não será, pois lá bem dentro de mim crescerão cercais, primeiro os grãos que rompem a terra para ver a luz, porém a mãe terra é escura: dentro de mim sou escuro: sou como um poço em cujas águas a noite deixa suas estrelas e segue sozinha pelo campo. Sucede que tanto vivi que quero viver outro tanto. Nunca me senti tão sonoro, nunca tive tantos beijos. Agora, como sempre, é cedo. Voa a luz com suas abelhas. Me deixem só com o dia. Peço Licença para nascer. "


No Reiki estudamos o kotodama (literalmente traduzido do japonês, "a alma da palavra" koto significa palavra e tama significa  alma). Kotodama ou kototama também se usa para designar sons que influenciam o nosso mundo físico e espiritual, kotodamas podem ser mantras. Na cultura japonesa e noutras, esses sons (mantrados) provocam uma alteração no estado de consciência ajudando à  concentração, elevação espiritual e transmutação da realidade percebida. Os cinco princípios de Reiki de Mikao Usui também são diariamente recitados ou cantados como um kotodama repetindo-se três vezes o texto. Eles constituem como que uma oração, um verdadeiro apaziguamento da alma.
Mas independentemente desse aspecto, toda a palavra tem um espírito e isso nunca pode ser esquecido. E é esse espírito que transmitimos aos outros quando lhes dirigimos a palavra. E quando as palavras são certas, as necessárias, elas traduzem um espírito elevado e em nada comprometem o silêncio. Porque elas próprias saem dum silêncio que as precede e enquadra. O kotodama encerra em si o valor do silêncio.


Sobre a língua japonesa e o tema Kotodama, aqui fica um excerto retirado do site Gouki Shinryu Heihou:

«A maioria geralmente não pensa ou debate sobre isso, porém todo literato, linguista e/ou escritor tem a linguagem como sua principal ferramenta de trabalho, de modo que percebe as nuances que a envolve. A partir da linguagem de um povo, é possível extrair muitos de seus hábitos e um pouco do que compõe a psique dessa nação, uma vez que a linguagem é o meio que o homem encontrou para exteriorizar seu conhecimento e emoções internas.

A partir desse prisma, não é tão difícil identificar diferenças elementares simplesmente a partir da linguagem dos povos. Por exemplo, o inglês é uma língua muito simples e objetiva, o que sugere a urgência e dinamismo históricos do povo americano e inglês em termos de negócios, uma vez que o inglês arcaico é muito diferente, de maior complexidade (havia até mesmo acentos gráficos), essa simplificação é, em parte, o que ajudou o inglês a se consagrar como "língua universal." O francês e sua complexidade um pouco mais elevada tanto fonética quanto gramaticalmente remontam ao seu passado nobre e reflete seu desejo por um status pomposo. O russo é um idioma de sonoridade tão forte quando o semblante de seus nativos e de difícil assimilação, tais quais seus costumes. O português é um idioma complexo, bastante específico em alguns pontos, como a diversidade de palavras e tempos verbais, por exemplo, e bastante vago em outros, como na lógica de suas exceções e irregularidades fonéticas e ortográficas (é com s, ss, c ou ç?), como os próprios lusitanos e sua sede de poder, que, sem o direcionamento adequado, logo os fez perder o posto de potência e, porque não dizer, compatível ainda com os brasileiros e sua relatividade de valores e simultânea capacidade incrível de adaptação.

No caso japonês, a linguagem é encarada de maneira muito diferente, para não dizer oposta, ao método ocidental. Um antigo conceito nipônico chamado Kotodama, presente inclusive desde documentos ligados ao mito de criação japonês como o Kojiki, significa o poder ou o espírito das palavras/linguagem. A partir disso, Kotodama sugere que nas palavras e nomes está contido uma responsabilidade e mesmo poderes místicos, sendo que os japoneses não vêem a linguagem como um objeto e sim como um evento, um assunto a ser estudado e interpretado das mais variadas formas.

Pelo facto da língua japonesa não ser muito rica foneticamente, muitas palavras são pronunciadas da mesma forma e podem causar mal-entendidos, caso o interlocutor não se mantenha atento. É contra a etiqueta japonesa ser muito direto, sendo assim, tanto por educação como por conveniência, um discurso pode ser facilmente proferido de forma genérica, de modo a deixar uma mensagem subentendida.

Por isso, na língua japonesa, o que predomina é a interpretação e todos os elementos envolvidos ao ato de falar também contam na passagem da mensagem. Esse é um dos motivos pelos quais a interrupção de um discurso é inadmissível para a dinâmica de linguagem japonesa, mesmo as pausas podem conter algum significado. Ma é o termo que se refere ao que os japoneses chamam de "pausas no tempo e no espaço", que por definição são muito mais que uma mera lacuna em branco. Nas artes, que constituíram as primeiras aparições e grande parte de sua utilidade de ma dentro da cultura japonesa, essas pausas demarcavam ritmo, dramaticidade e integravam todo o conjunto adquirindo importância. Posteriormente, esse hábito passou a ser utilizado também socialmente e foi completamente integrado por serem os japoneses um povo de muitas sutilezas em todos os sentidos, tudo em sua cultura é muito artístico.

Por outro lado, a Kotodama possui também sua faceta negativa para os japoneses, tal qual a linguagem pode favorecer as artes, seu poder também é temido pelo povo. Essencialmente discretos, os japoneses mantém certa desconfiança nas palavras, por serem muito generalizadas e dependentes do contexto, com frequência eles acham por bem não se embasar por completo no que ouvem ou mesmo no que dizem, pois jamais podem ter certeza de que a mensagem foi passada adequadamente. Seria extremamente indelicado questionar o interlocutor sobre isso e, na visão japonesa, a responsabilidade pelas palavras que se profere é única e inteiramente do indivíduo, caso não tenha sido bem sucedido em transmitir o que intencionava, a vergonha e a retratação devem ser absorvidas por ele.

Encaradas como artes por excelência e patrimônio cultural japonês, também as artes marciais originadas nesse território sofreram influência do "espírito da palavra." Qualquer pesquisador e/ou praticante das artes japonesas podem perceber que é muito frequente a utilização do Kiai, ou seja, a vocalização de algumas sílabas durante a prática da técnica. Isso é uma evidência elementar da crença japonesa no poder da palavra e da linguagem, os antigos guerreiros utilizavam essa ferramenta para intimidar o oponente e mostrar superioridade, quanto mais alto e bem proferido o seu Kiai, melhor visto era o bushi.

Essa filosofia serve como ensinamento para a educação e consciência do poder da linguagem. Um senso de responsabilidade deve ser adquirido sobre o que se fala, pois as palavras proferidas são o que os demais podem captar da sua personalidade e essência, bem como tudo que as cerca, ou seja, sua postura, entonação, vocábulo, gestos. O conjunto de todos esses fatores compõe a figura que será criada em torno de sua imagem e todo emissor deve cuidar para se fazer entender claramente, do contrário, idéias equivocadas sobre suas afirmações podem ser geradas e, a partir disso, todo um ciclo de influências se formará em torno desse entendimento errôneo que inclusive poderá voltar a prejudicar o próprio indivíduo.»










O silêncio dos índios
(autor desconhecido)


Nós os índios, conhecemos o silêncio. Não temos medo dele.
Na verdade, para nós ele é mais poderoso do que as palavras.
Nossos ancestrais foram educados nas maneiras do silêncio e eles...
nos transmitiram esse conhecimento.

"Observa, escuta, e logo actua", nos diziam.
Esta é a maneira correcta de viver.
Observa os animais para ver como cuidam dos seus filhotes.
Observa os anciões para ver como se comportam.
Observa o homem branco para ver o que quer.
Sempre observa primeiro, com o coração e a mente quietos,
e então aprenderás.
Quando tiveres observado o suficiente, então poderás actuar.

Com vocês, brancos, é o contrário. Vocês aprendem falando.
Dão prêmios às crianças que falam mais na escola.
Em suas festas, todos tratam de falar.
No trabalho estão sempre tendo reuniões
nas quais todos interrompem a todos,
e todos falam cinco, dez, cem vezes.
E chamam isso de "resolver um problema".
Quando estão numa habitação e há silêncio, ficam nervosos.
Precisam preencher o espaço com sons.
Então, falam compulsivamente, mesmo antes de saber o que vão dizer.
Vocês gostam de discutir.
Nem sequer permitem que o outro termine uma frase.
Sempre interrompem.

Para nós isso é muito desrespeitoso e muito estúpido, inclusive.
Se começas a falar, eu não vou te interromper.
Te escutarei.
Talvez deixe de escutar-te se não gostar do que estás dizendo.
Mas não vou interromper-te.
Quando terminares, tomarei a minha decisão sobre o que disseste,
mas não te direi que não estou de acordo, a menos que seja importante.
Do contrário, simplesmente ficarei calado e me afastarei.
Terás dito o que preciso saber.
Não há mais nada a dizer.
Mas isso não é suficiente para a maioria de vocês.

Deveríam pensar nas suas palavras como se fossem sementes.
Deveriam plantá-las, e permitir que cresçam em silêncio.
Nossos ancestrais nos ensinaram que a terra está sempre nos falando, e que devemos ficar em silêncio para escutá-la.
Existem muitas vozes além das nossas.
Muitas vozes.
Só vamos escutá-las em silêncio.